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Estórias direto da China

  

A Montanha Amarela

Como já disse, Huang Shan é uma das minhas regiões preferidas na china. Além de contar com chás verdes incríveis, como o Huang Shan Mao Feng e o Tai Ping Hou Kui, Huang Shan é um dos grandes polos turísticos da China por causa da famosa Montanha Amarela. A cerca de 60km de Tun Xi, o centro de Huang Shan, por assim dizer, a Montanha Amarela é um complexo de montanhas que, se não surpreende tanto pela altitude que alcança (cerca de 1.800 metros, com alguns picos mais altos), ele com certeza faz qualquer um ficar de boca aberta com os cenários que oferece. Há um ditado na China que diz que “as cinco montanhas sagradas apequenam todas as demais montanhas e a Montanha Amarela apequena aquelas cinco”.

Vista da montanha amarela ao amanhecer

Esta semana estive em Tun Xi e arredores visitando alguns mestres de chá e pela primeira vez resolvi dar um pulo até o alto da montanha para conferir o que havia por lá. Apesar de já ter visitado Huang Shan algumas vezes, em geral passo meu tempo nos jardins de chá, em montanhas menos procuradas pelos turistas, em geral mais ao norte de Montanha Amarela, de forma que esta foi a primeira vez que fui até lá. Tudo começou quando estava a noite em meu hotel e conversando com dois chineses mochileiros que estavam rodando a área fui alvo de muita chacota por nunca ter ido ao topo da montanha a despeito de já haver visitado a região. Minha situação, viam os chineses, era como a de um gringo que já foi várias vezes ao Rio de Janeiro, digamos, e nunca pisou em Ipanema. Os dois rapazes, alguns minutos mais tarde, apareceram com um papel rosa no qual havia meu nome escrito (Zhuang Bao Luo, 庄保罗, é meu nome por aqui). Era a passagem de ônibus para Tang Kou, a base da montanha, que eles haviam comprado para mim de presente. Desta vez, a pesar da previsão de chuva para o dia seguinte, eu iria ao topo da montanha.

Na manhã seguinte, as 6 horas, peguei o ônibus até Tang Kou. Chegando lá, depois de 1 hora e pouco, nos deparamos com uma chuva razoável e persistente. Não sabendo o que me esperava pela frente, ignorei a insistência do chinês em esperarmos algumas horas mais para começarmos a subida e embarquei no ônibus para o Templo Ci Guang, onde fica o início da trilha para a face oeste da montanha. Chegando lá, ainda de baixo de chuva (chuva que me acompanharia até o topo da montanha), comecei a subida. Depois de alguns milhares de degraus e três horas, havia me elevado em quase 1.000 metros de altitude ao chegar ao Cume da Flor de Lotus. Este primeiro dia, além de extremamente extenuante, não foi lá grande coisa. A chuva que caia, combinada com a neblina intensa, não deixava muita coisa aparecer. Apesar de não ser o que se espera da Montanha Amarela, contudo, foi interessante subir as escadarias íngremes no meio de fendas estreitíssimas ao som do Matita Perê do Tom e do Birth of the Cool de Miles. Depois de dar umas bandas no topo da montanha, resolvi descansar um pouco e procurar alguma forma de secar minhas roupas antes de cair exausto num sono antecipado.

As 4:00 do dia seguinte já estava de pé preparando um chá para o começo das minhas andanças. O topo da montanha é uma rede de trilhas que sobem e descem entre os muitos picos que se elevam a cima das nuvens e dos quais se pode ter vistas de diversos Yun Hai’s (literalmente “mar de nuvens”). Escolhi o Pico da Cúpula Brilhante (Guang Ming Ding), um local próximo de onde havia passado a noite, para comecar meu dia. A manhã estava super nublada e foi um tanto frustante não poder ver o sol nascendo como nas famosas fotos de Hunag Shan. De toda forma, o visual era incrível e rendeu algumas fotos bacanas.

Macacos na Montanha Amarela

Saindo do Pico da Cúpula Brilhante parti para o Cume da Rocha Voadora, um pico no vale do Mar de Nuvens do Oeste que tem uma vista privilegiada de todo o vale que o circunda. O tempo ainda estava muito nublado, então resolvi esperar um pouco e tomar meu café-da-manhã. Enquanto comia, as nuvens começaram a se dispersar e a vista se abriu em um espetáculo fascinante. O mar de nuvem à minha frente se estendia até onde a vista alcançava e os picos da montanha pipocavam aqui e acolá ao passo que as nuvens vez ou outra os engoliam. O céu azul sobre tudo isso, completava o cenário.

Vista para o Oeste

Em toda a extensão da rede de trilhas é comum cruzar com rapazes que carregam ao topo da montanha, pendurados nas pontas de varas de bambu que levam sobre os ombros, os suprimentos necessários para manter o fluxo incessante de turistas. Segundo alguns deles, há quem carregue 80, 100 kg de suprimento montanha acima - um desnível de mais de 1 km percorrido em íngremes escadarias de pedra, muitas vezes molhadas.

Depois de algumas horas de caminhada, fui parar no Pico do Leão, o melhor local para se apreciar o Mar de Nuvens do Norte (Bei Yun Hai) e lá encontrei um senhor tranquilamente retratando a montanha com nanquim e um pincel tradicional de caligrafia chinesa. Ficamos batendo papo alguns minutos antes de eu retomar meu caminho rumo à base da montanha. Desci, por um dos dois teleféricos que fornecem um acesso mais tranquilo ao topo da montanha, até o Templo de Yun Gu, de onde iniciei meu caminho de volta a Tun Xi.

Artista pintando o visual!

Para aqueles que nunca estiveram na China - e para aqueles que já estiveram e nunca foram à Montanha Amarela -, digo que valhe muito apena. Ela apequena, de fato, muita coisa mais famosa que há por aí...

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