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Estórias direto da China

  

Não Pare Na Primeira

Uma das perguntas que mais recebo de nossos clientes diz respeito à informação, que disponibilizamos em nossa loja e em nossas embalagens, sobre as múltiplas infusões que nossos chás suportam. Eu consigo compreender que seja um pouco difícil de entender esta ideia, uma vez que eu mesmo levei algum tempo para me acostumar com ela e adaptar minha forma de tomar os chás de mais alta qualidade que comecei a conhecer durante o tempo em que vivi na China. Por aqui, nunca se toma apenas uma xícara de chá e muitos chineses costumam, inclusive, descartar a primeira infusão de suas folhas, sobretudo quando preparando pu’ers.

6 infusões de um Rou Gui

Bom...o fato é que múltiplas infusões e os chás de folha inteira (ah...e aqui eu não estou falando daqueles chás de folhas quebradas, irregulares e velhas que mais parecem aquele amontoadinho de sujeira que se junta no pé das árvores no outono) são duas coisas que surgiram e se desenvolveram juntas, de forma que não há como separá-las sem deixar algo legal para trás. Não se trata de uma questão de rendimento, como alguns pensam. No fundo, os chás de folha inteira fazem, proporcionalmente, sempre a mesma quantidade de chá para um determinado paladar. A questão, na verdade, diz respeito à complexidade da cinética química das infusões, ou seja, aos diferentes tempos que as diversas substâncias presentes em uma folha inteira de chá precisam para serem liberadas na infusão. Em outras palavras, estou falando aqui da composição química e, consequentemente, dos sabores, aromas e cores das diversas infusões. Vitaminas, aminoácidos, carboidratos, cafeína e polifenóis não são liberados pelas folhas em infusão no mesmo momento e cada uma destas substâncias é responsável por determinadas notas de aroma, sabor e cor. A cafeína, por exemplo, é uma substância extremamente hidrossolúvel e sempre estará presente em maiores concentrações na primeira infusão. Por outro lado, substâncias menos hidrossolúveis marcam o tom das infusões posteriores. Além disso, a cada xícara tomada, vai-se construindo em sua boca uma espécie de cenário sobre o qual a próxima infusão desempenhará seu papel.

Para aqueles que tomam chás pelos benefícios que a bebida pode trazer para a saúde, esta ideia das múltiplas infusões é também importante. Em um post anterior falei de como a concentração das substâncias bacanas do chá (sobretudo a dos polifenóis), é muito maior em chás de folhas novas e inteiras. Contudo, os polifenóis e vitaminas não são liberados em grandes concentrações na primeira infusão. Assim, usar apenas 0,5g de um Long Jing, por exemplo, para fazer apenas uma xícara é uma perda de tempo também para quem busca os benefícios que os chás podem trazer para a saúde. Fazendo isso, o sujeito terá em suas mão, é verdade, uma xícara gostosa de chá, mas uma xícara carregada de cafeína e com muito menos polifenóis do que o chá tem a oferecer.

Seis infusões de Tie Luo Han, um oolong rochoso

Um lance interessante sob o que o que acabei de escrever é que aqueles que tem problemas com a cafeína podem simplesmente jogar fora a primeira infusão de seus chás, como muitos chineses fazem (não por causa da cafeína, é verdade, mas...) e começar a tomar a partir da segunda infusão.

As mesmas pessoas que me perguntam sobre o por quê das múltiplas infusões, contudo, depois de ouvirem minha explicação, começam a apontar a dificuldade prática de se fazer diversas infusões. Normalmente não se quer tomar 4 ou 5 xícaras de chá no café-da-manhã, por exemplo. Nem eu, aficionado em chá, quero isso. Para conseguir começar a aproveitar essa outra dimensão do mundo do chá de folha inteira tive, confesso, que fazer algumas pequenas adaptações no meu estilo de vida. Em primeiro lugar, comprei uma chaleira elétrica para ter em meu escritório – água quente no Brasil, ao contrário da China, não se encontra em qualquer canto e como também prezo pela qualidade da água que uso para meus chás, não dava para continuar dependendo de qualquer maquininha de espresso. Além disso, comprei um copão de 300ml de parede dupla que posso carregar para cima e para baixo. Assim, não preciso me afogar em chá em 20 minutos durante o café-da-manhã ou após o almoço. Em geral faço meu primeiro chá logo pela manhã e com as mesmas folhas passo a manhã inteira. Pela tarde, depois do almoço, escolho outro chá e sigo a mesma lógica.

Bom...para aqueles que me perguntam sobre as múltiplas infusões, é mais ou menos por aí.

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